sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Crônica da semana

Um dia na pele de Heloíse Bitencourt Cap.4 (penúltimo)

Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com frequência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar." William Shakespeare



" A vingança é um prato que se come frio".
Esse clichê pode soar meio exagerado, mas é o que estou sentindo agora, deitada na minha cama com uma tremenda insônia, pensando como irei contar a Caroline tudo o que eu descobri. Já passavam das duas horas da madrugada, e como eu sabia que não conseguiria pegar no sono, decide por uma ideia em prática. Liguei o computador novamente, peguei minha câmera, "abri" aquela conversa e resolvi tirar fotos daquilo, tirei várias, de cada palavrinha indecente que aquela sem vergonha escreveu.
Sei que naquele horário não havia ninguém "on line", por isso enviei uma mensagem para Caroline, através do perfil de Heloíse, com todas as fotos que eu tirei. Agora era só esperar a reação dela.
Era manhã de terça feira, dia quinze de abril. Acordei, tomei banho e desci para tomar café, disfarçando minha expressão de ansiedade. Pedro desceu em seguida, com um sorriso de canto de boca muito sutil, ele se sentou e como faz toda manhã, ficou mexendo no celular. Seu cinismo era intrigante, cheguei a conclusão que aquela não foi a primeira vez que ele teve aquele tipo de conversa com uma mulher na internet. Minutos depois alguém bate na porta, só podia ser ela, fui abrir a porta com um enorme frio na barriga. Caroline estava com uma expressão de ódio que eu nunca tinha visto, ela me perguntou:
—  Onde está o canalha do seu irmão ?
—  O que é isso Carol, por que está falando isso ? Tentei fingir estranheza.
—  É um assunto meu e dele, você já vai ficar sabendo. Dá pra dizer onde ele estar ?
—  Claro, ele está lá na cozinha. Pode entrar !
Ela entrou na minha casa como um cavalo xucro, fiquei com medo do que ia fazer, entrou na cozinha, ficou na frente dele e começou a falar:
—  Você não tem vergonha nessa cara ?
—  O que é isso princesa ? Pedro responde.
— Pode parar com o fingimento, aquela "piriguete" com quem você passou a noite conversando ontem a noite, entregou você.
—  Que "piriguete" amor, não conheço nenhuma "piriguete" !
—  É ? Então o que significa essas fotos ? Essa tal de Heloíse me mandou ontem de madrugada. Como pôde ? Me chamou de feia, disse que sou fácil !
—  Quer saber ? Falei sim, cansei de você. Nunca faz nada do que eu peço. 
—  Você acha que sou uma vadia é ? Pois bem, se gosta tanto de vadias, vá para os braços dela, duvido que ela te queira. Cretino !
Caroline deu um tapa na cara de Pedro e foi embora, tentei conversar, mas ela não quis saber, achou que eu estava acobertando os casos dele. Pedro começou a xingar Heloíse para as paredes, e fazendo varias ameaças. Se algum dia ele descobrir que sou eu a causadora disso tudo, acho que nunca me perdoaria.
 Passaram alguns meses depois do ocorrido, Caroline voltou a falar comigo e eu estava ainda mais presa a Heloíse, consegui elevar essa mentira há um nível, digamos assim, sofisticado. A atriz de quem eu roubei o rosto de Heloíse, se chamava Julia Carter, uma americana de vinte e oito anos, pra minha sorte ela tinha uma infinidade de fotos na internet, que eu salvava para criar eventos onde ela ia, tudo muito real. Me diverti muito, conheci vários homens, comecei a entender o que eles pensavam, cheguei a preferir a vida dela a minha, Heloíse era tudo o que eu queria ser, ela era desejada, popular e tinha uma legião de homens aos seus pés, ela era o alimento da minha vaidade e da minha auto estima, em certo momento achei que aquilo era minha maior felicidade, porém assim como um objeto numa vitrine de shopping, Heloíse não me pertencia, aquele mundo estava do outro lado de uma tela de vidro, eu podia ver, mas não podia viver nada daquilo, e já não achava mais tanta graça nessa farsa.   
Era mês de novembro, mais um dia, mais uma mensagem. Estava esperando mais uma cantada boba ou um xingamento de quem eu "detonei" esse mês, mas não era nada disso, era um verso, um verso lindo provavelmente copiado de algum autor famoso, mas enfim... agradeci ao remetente, o nome dele era Jorge Oliveira, já era amigo de Heloíse á algum tempo, mas nunca tinha conversado comigo, eu agradeci o verso e ele respondeu:
—  Sua beleza é meu elixir, o que me faz acordar toda manhã com um sorriso no rosto, por lembrar da perfeição que você é.
—  Isso é lindo, você que escreve ?
—  Não, são trechos de livros que eu costumo ler, mas que traduzem tudo o que eu penso sobre vc, infelizmente não sou bom com as palavras.
—  acho muito legal, homens que gostam de leitura.
Tivemos uma longa conversa, talvez a mais interessante até hoje, e pela primeira vez comecei a me sentir mal por está enganando alguém. Decidi que já havia passado da hora de acabar de vez com essa mentira, e contei tudo a ele, quem eu sou e o que eu fiz. Jorge me surpreendeu com uma resposta:
—  kkkkkkkk Jura ? Que máximo, vc é muito criativa !
—  Não está bravo ?
—  Claro que não, fiquei ainda mais interessado em saber mais sobre vc !
  Eu sinto muito te decepcionar, mas eu não sou bonita como Heloíse.
  Eu sinto em decepciona-la, mas não me interessei por uma foto, me interessei por criatividade, seria um prazer encontrá-la pessoalmente. 
Marquei um encontro com ele no shopping, no dia seguinte, nunca acreditei que alguém poderia gostar de uma pessoa com uma conversa pelo Facebook, mas acho que isso aconteceu comigo. Quanto a Heloíse, dasativei aquela conta, foi bom enquanto durou, mas só de pensar nos problemas que ela já me arrumou, me sinto aliviada.
Dia dois de novembro, fui ao Subway me encontrar com o Jorge. Ela estava sentado e se levantou quando me aproximei dele:
  Sabe... Achei que os homens educados já haviam sido extintos da face da terra. Eu respondi.
  Obrigado pelo elogio, mas se me permite fazer um... Você é mais linda que Heloíse. 
  Não precisa exagerar. Me diga uma coisa, o que você faz da vida ?
  Sou técnico de informática.
—  Espera e você nunca tentou hackear o face de Heloíse ? Com o conhecimento que você deve ter, conseguira isso fácil.
—  Mas eu sempre soube de tudo.
—  O que ?
—  Não faz muito tempo, descobri a senha da sua conta e o número do IP do seu computador. Achei a história muito excitante e fiquei esse tempo observando você, até ter coragem de chamá-la pra sair.
—  Nossa ! Não sei se fico assustada ou preocupada ?
—  Não precisa se preocupar, eu nunca contei pra ninguém. Mas queria te fazer um convite, aceita conhecer meu apartamento, mostrarei meus livro pra você, sei que gosta muito de ler.
—  Não sei, acho um pouco cedo pra ir no seu apartamento. 
—  Por favor, somos adultos, prometo que é só pra você conhecer um pouco do meu mundo, já que conheço o seu.
Fiquei com receio de aceitar, porém Jorge sabia de um segredo meu, se ele ficasse irritado que quisesse contar tudo ? Além disso era um apartamento, o que poderia acontecer, deve ter muita gente morando lá também, qualquer coisa... Disse que aceitava o convite. 
Fomos de táxi até um o bairro da consolação, descemos e continuamos o trajeto a pé, estranhei um pouco a distancia, o caminho estava ficando cada vez mais deserto. Perguntei a ele:
—  Pra onde você tá me levando ? Já esta perto ?
—  Calma meu doce, já chegamos.
Fiquei olhando para o lugar e não vi nenhum prédio, apenas algumas casas, um pouco velhas por sinal, e ele me levou para entrar numa casa verde de portão cinza. Nessa hora não pensava em mais nada, a não ser como sair dali. Ele me levou em direção ao quarto, me ofereceu água, mas não aceitei, estava muito apavorada para isso. Entramos, e a primeira coisa que eu reparei foram as paredes, estavam abarrotadas de fotos de mulheres nuas, e não haviam livro lá, apenas um ou outro, mas nada daquilo que ele falou que iria me mostrar. Ele trancou a porta e falou: 
—  Relaxa meu bem, vamos nos divertir um pouco.
Comecei a rezar nos meus pensamentos, e me perguntei:  Como eu entrei fui entrar nessa enrascada ? Percebi que Jorge era uma maníaco e conseguir escapar daquele pesadelo parecia algo impossível.

Continua...








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