Um dia na pele de Heloíse Bitencourt Cap.5 (Final)
" É possível repousar sobre qualquer dor de qualquer desventura, menos sobre o arrependimento. No arrependimento não há descanso nem paz, e por isso é a maior ou a mais amarga de todas as desgraças. " Giacomo Leopardi
O conhecimento é uma virtude, um tesouro inestimável, mas também uma arma. Um ladrão não precisa estudar para cometer um crime, mas ter o conhecimento do código penal, coloca um grande poder em suas mão, sabendo usar corretamente ele conseguirá tudo o que planeja com muito mais facilidade. Jorge sabia o que estava fazendo, ele estudou quem eu era, sobre as coisas que eu gostava de ler, ele era muito inteligente. Esse com certeza foi o momento mais pavoroso da minha vida, pensei em gritar, agredi-lo, mas vi que ele estava armado, fiquei acoada, sem reação. Ele veio se aproximando e começou a falar:
— Está com medo ?
— Estou apavorada ! O que você vai fazer comigo ?
— Não se preocupe ! Não quero machucá-la, não irá acontecer nada com você.
— Então por que está com essa arma ?
— Só quero ter um pouco de prazer. Desculpa por tudo isso, mas eu não tenho controle... É mais forte que eu... Eu sou um monstro.
— Por favor me deixa ir embora, eu não posso passar por isso ! O que vão pensar de mim ?
— Não posso te deixar embora, estou possuído !
— Como assim ? Você é de alguma seita satânica ?
— Não, acho que sou doente ! As vezes tenho crises, é um desejo que me possui, muito forte, perco a razão quando estou assim. Não sei do que sou capaz de fazer. Eu te prometo, serei carinhoso com você, será rápido !
Como um mostro poderia prometer carinho ? Naquele momento meu desespero era tão grande, que só pensava em sair dali, Jorge era um maníaco, mas ainda tinha um pouco de humanidade. Ele começou a tirar minha roupa, insistia em fazer caricias, mas aquela situação era tão humilhante que não parava de chorar. Em nenhum momento ele quis me bater ou ser violento, mas Jorge tirou minha dignidade, quando tudo acabou, ele abriu a porta do quarto e disse:
— Por favor me perdoa ? Vá embora, você não pode ficar aqui ... Eu sou um monstro.
Fui embora dali o mais rápido que eu pudi. Liguei para o meu irmão e pedi para ele dar um jeito de me buscar, não sabia com que cara eu olharia para ele. Quando ele chegou percebi que estava muito preocupado, havia saído a tarde e já passavam das nove da noite, ele me abraçou e me perguntou:
— Roberta ? O que faz nesse lugar tão longe ?
— Por favor Pedro, não me pergunte nada agora. Me leva pra longe daqui... Me leva pra casa... Preciso tomar um banho.
Não conseguia para de chorar, Pedro insistia para saber o que havia acontecido comigo, falei que contaria tudo, quando tomasse coragem. Quando cheguei fui ao banheiro tomar meu banho, o banho mais constrangedor da minha vida, não conseguia olhar para o meu corpo, eu sentia nojo de mim mesma. Naquele momento comecei a pensar em tudo o que tinha feito, onde eu tinha me metido, eu havia invadido a coisa mais perigosa que existe no ser humano, a sua intimidade, o lugar onde escondemos nossos segredos. Todo mundo esconde alguma coisa, temos o controle do que sai da nossa boca, mas não somos capazes de controlar nossos pensamentos, e quando pensamos em algo que não queremos que seja exposto, a gente esconde, e eu expus os segredos de muita gente sem medir nenhuma consequência. Aprendi muito sobre os homens, e posso falar uma coisa, nenhum homem é igual, apesar da imensa maioria viver em função de sexo, futebol e video game, existe uma outra parte que ama, que é sensível, não falo de Jorge, esse foi uma maçã podre no meio da salada de frutas, mas de vários outros na maioria das vezes esteticamente menos atraentes, e que eu não valorizei.
Na manhã seguinte fui a faculdade, Pedro continuava me pressionando para contar o que aconteceu, mas eu não quis, estava procurando a hora certa de contar a história desde o começo, inclusive que eu era a culpada da sua briga com Caroline. Quando a aula acabou, peguei meu material e fui embora, mas quando cheguei no portão do colégio, avistei algo que gelou até minha alma. Era ele, o maníaco do Jorge do outro lado da rua, fiquei com medo de sair e voltei para dentro, fui procurar Caroline, ela tinha carro e poderia me tirar dali com segurança, ela estava no estacionamento:
— Carol, amiga !
— Oi Roberta.
— Amiga me dá uma carona por favor ?
— Mas Roberta você saber que moramos em sentidos contrários.
— Por favor Carol, é um caso de vida ou morte. Não estaria lhe pedindo isto, se não estivesse desesperada.
— Tudo bem, entra então. Mas o que está acontecendo de tão grave ?
— Agora não posso falar amiga, mas depois te conto tudo.
Os dias que se seguiram foram a mesma coisa, além de ficar na porta da faculdade a minha espreita, Jorge também descobriu onde eu moro e ficava sentado na calçada no outro lado da rua sempre observando tudo. Liguei para a polícia várias vezes, mas ele sempre dava um jeito de escapar, eu não tinha mais paz, parei de frequentar a faculdade e não saía mais de casa. Meu irmão estava muito preocupado comigo, meus colegas e professores ligavam o tempo todo para sabe o que estava acontecendo, mas eu sempre inventava uma desculpa qualquer.
Hoje, vinte e dois de agosto de dois mil e dez, cheguei no meu limite. Não posso mais ficar nessa casa, a qualquer hora ele pode invadir e tentar me violentar outra vez. Há algum tempo já estava planejando ir embora para a casa dos meus pais em São José dos Campos e largar de vez a faculdade, passei o dia arrumando minhas malas e estava desposta a fazer isso. Pedro estava na academia e eu esperando chegar a noite para sair.
São nove e meia da noite, peguei todo o dinheiro que estava guardado na estante da sala, liguei para o taxista me buscar na porta da minha casa as dez. Fui a mesinha do meu quarto e comecei a escrever esta carta para o Pedro.
Meu querido irmão, antes de mais nada queria te pedir perdão por tudo, amo muito você mas errei, errei muito. Deixo registrado nessas páginas tudo o que aconteceu durante esse um ano e meio, todas as pessoas que eu enganei, toda a farsa que eu montei e a enrascada que eu me meti. Não sei se conseguirei chegar salva na rodoviária, mas tenho fé que sim, revele esse segredo se achar que deve, não pretendo voltar. Heloíse sempre esteve do seu lado e você nunca desconfiou, se me perguntasse se eu me arrependi, digo que não, foi divertido enganar esse povo, mais que isso, foi prazeroso, mas acabou, Heloíse está morta e deixo esta carta como seu legado. Até qualquer hora !
Beijos, Roberta Cavalcante.
Então é isso pessoal, acaba aqui a Crônica dessa semana. Em breve publicarei mais histórias, espero que tenham gostado.


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