A Professora e o Pistoleiro
Capítulo 1
"A injustiça num lugar qualquer é uma ameaça à justiça em todo lugar."
Antecedo-me caro leitor a avisar-te que essa história não se trata de um simples romance de novela mexicana ou das obras de Bernardo Guimarães. Se veio em busca de ler sobre um final feliz, frases bonitas, um casal apaixonado e um amor idealizado, essa narrativa não é para você, se esse era seu objetivo, lamento, é melhor voltar a ler A saga Crepúsculo.
Mais um dia de sol forte em Lageado Novo, a cidade estava em polvorosa a espera do discurso do prefeito Firmino Dias no comício daquela tarde de terça feira, poucos dias antes das eleições. A praça principal estava cheia de seguidores do candidato a reeleição, carros de som executando seu "jingle" o tempo todo (uma paródia da música Camaro amarelo de Munhoz e Mariano). No palco estava o prefeito, seu vice, sua esposa e seus apoiadores de campanha e ele finalmente iria começar o pronunciamento de seu discurso:
— Meu amigos... E minhas Amigas. É com muita honra que estou aqui hoje neste dia tórrido de terça feira, para humildemente pedir seu voto. Peço que compareçam nas urnas neste domingo e me deem apoio, para eu ficar por mais quatro anos trabalhando por essa cidade. Eu que todos esses anos, lutei por mais educação... Por mais saúde, esporte e lazer. Que asfaltei as ruas da nossa querida cidade, coloquei merenda nas nossas escolas... Sei que ainda falta muita coisa para ser realizada e se eu for eleito farei muito mais !
Antonio Firmino da Silva Dias é um importante pecuarista, suas propriedades, assim como as cabeças de gado nela presentes, são frutos de pouco mais de dois anos no cargo de Prefeito de Lageado Novo do Maranhão. Um homem de setenta e três anos, estatura média, já tinha metade da cabeça calva e uma pele avermelhada já bastante enrugada, tinha um péssimo caráter, autoritário, conseguiu desviar mais de oito centos mil reais do dinheiro que seria dedicado a obras sociais e infraestrutura da cidade, tudo com a ajuda do excelentíssimo Sr. Juíz Fernando de Souza Mello, que fraudava os contratos e licitações a mando do prefeito. Pessoas da estirpe de Firmino só possuem um desejo na vida; o poder. A forma como irá conseguir pouco importa, e ele foi capaz de mentir, matar e "comprar" pessoas para conseguir o respeito, ou melhor dizendo, o medo de todos a quem ele lança um olhar "torto". Sua carreira política é um grande clichê, parte do mesmo artifício que praticamente todos os políticos utilizam para ter sucesso, a manipulação. Ele criou falsos boatos sobre seu concorrentes e espalhou pela cidade, suas propagandas na televisão mostravam propostas admiráveis, seus apoiadores bancaram tudo e contrataram os melhores publicitários para vender uma imagem de um homem exemplar. Mas quando eleito Firmino cometeu vários crimes, dentre os quais destaco a lavagem de dinheiro, desvio de verbas e a "pistolagem", tudo feito por baixo dos panos, enquanto o povo sofria com a precária situação social da cidade, que por sinal possui um dos mais baixos IDH do país. Poucos meses antes do dia das eleições, ele colocou homens e tratores para concertar a rua principal, aquela velha tentativa de iludir o povo com a falsa impressão de serviço comprido.
O discurso foi breve e acabou com a interrupção de uma viatura da polícia militar que vinha a poucos metros dali. As pessoas começaram um enorme falatório, estavam assustados com o que estava acontecendo. Quando ela chegou próximo ao palco, alguns homens desceram do carro e foram em direção ao Prefeito, um deles o Delegado Moreira que começou a falar:
— Sr. Prefeito você está preso ! Sob as acusações de ser o mandante no assassinato do Professor Rafael Gonçalves e na ocultação do cadáver. Queira me acompanhar até a viatura.
— Mas que conversa é essa ?... Eu posso saber quem fez a denúncia ? Como é que pode ir chegando no comício dos outros desse jeito e levar pra cadeia. Eu exijo ver meu advogado ! Disse Firmino completamente alterado.
— O Sr. está sendo preso em flagrante, algumas testemunhas que estavam no local do crime gravaram tudo com o celular e um dos seus homens já confessou o crime e apontou o seu nome como mandante. Eu sinto muito Prefeito, mas a sua situação encontra-se bastante complicada.
O Prefeito saiu algemado do palco ao som das vaias da população e foi encaminhado a delegacia através da viatura policial. Quando chegou, o seu advogado já o esperava na porta, prestou um depoimento e foi para a cela. Dias depois seu Habeas Corpus foi expedido pelo Juiz Melo, seu amigo e aliado, e foi liberado com o direito de responder o processo em liberdade.
Em sua casa o Prefeito teve uma conversa com seu capanga e fiel empregado Emílio, no escritório de sua casa:
— Acham que eu não desconfio, mas eu sei que aquele " fi " duma égua do Sebastião que armou isso tudo ! Berrou Firmino, batendo na mesa do escritório.
— Como ele pôde ter feito isso, ninguém sabia de nada ! Só pode ter sido uma coincidência esses meninos terem aparecido e filmado o crime.
— Eu não sou besta não cabra... Tem alguém passando todas as informações daqui pra ele. Estou desconfiado disso, desde aquele dia em que quase me pegaram naquela reunião com o Nogueira. E depois teve aquela vez que me denunciaram por carcere privado... Eu tô dizendo, estão passando tudo pra ele... E se eu descubro quem é que está fazendo isso... Ah, esse indivíduo responsável por essa traição, terá uma morte muito da ruim.
— O que o senhor está pensando em fazer ?
— Eu nada ! Mas vocês sim. Chame os outros e armem uma emboscada pra ele. Descubram onde ele está e matem. E rápido, isso é uma ordem.
— Tudo bem Sr... Pode deixar !
Sebastião Gomes é candidato a prefeitura de Lageado Novo, nasceu em Codó, mas se mudou para Imperatriz para formar-se em Matemática na UEMA. Quando formado iniciou sua carreira de professor em Codó na Escola Municipal Presidente José Sarney, mas foi transferido para Lageado Novo por decisão da Secretaria de Educação. Lá Sebastião encontrou um cenário de miséria e desolação, a Escola em que trabalhava não tinha uma boa estrutura, não havia material didático e para completar, os salários sempre atrasavam. Foi aí que ele fundou o Sindicato dos Professores de Lageado Novo, para o desespero de Firmino Dias, onde comprou uma briga feia com o mesmo. Disposto a lutar pelos direitos dos professores e da população em geral, Sebastião filiou-se ao PL, liderou vários movimentos e passeatas que tiveram a aprovação da população, e assim aproveitou sua popularidade para candidatar-se a prefeito da cidade.
Naquela tarde de calor sufocante, como de costume, Sebastião estava no Bar da Nazaré comemorando a prisão de Firmino, junto com vários de seus amigos professores e aliados de campanha:
— Hoje o carrasco caiu meus amigos, é o começo de um novo tempo. É a prova de que ainda dá para se confiar na justiça. Bradou Sebastião.
— Eu duvido que esse bandido fique pelo menos dois meses na cadeia, ele é macaco velho, já está escaldado com esse tipo de coisa. Não acho que político corrupto vá para a cadeia nesse país. Ele tem dinheiro e influências, se quiser, ele consegue mandar até no papa. Disse seu amigo.
— Cale a boca Davi, está falando besteira. Dessa vez existem provas incontestáveis, além das várias testemunhas que irão depor contra ele, e além di... "Pera aê", tem alguém me ligando... Alô...
Era Shirley, secretária de Firmino a quem Sebastião havia convencido a delatar tudo o que acontecia na prefeitura, em troca de um carro e o seu terreno próximo ao Rio Lageado. Graça a ela, Sebastião conseguiu realizar seu plano de filmar o assassinato do professor Rafael. Durante a ligação, sua voz parecia bastante nervosa:
— Seu Sebastião, pelo amor de Deus, saia de onde o senhor estar depressa... Ele mandou os cachorros irem atrás do senhor. Eles irão lhe matar. Se esconda onde o senhor puder, rápido.
— O que você está dizendo... E agora ? Meu Deus, socorro !
Sebastião rapidamente levantou-se da cadeira e avisou a dona Nazaré que acertaria a conta mais tarde, quando uma Hilux prata chegou ao local, e dela saiu três homens. Eles começam a atirar em todo mundo que estava, naquela hora houve uma enorme correria, muitas pessoal gritando desesperada, mas Sebastião conseguiu correr para dentro do mato atrás do bar, o mais rápido que consegui, três pessoas foram acertadas pelas balas e uma morreu. Após esse episódio, professor Sebastião não foi mais visto pela cidade, ninguém sabia informar seu paradeiro, alguns acharam que havia morrido e outros que fugiu da cidade.
A situação política da cidade estava completamente indefinida, Firmino teve sua candidatura suspensa, Sebastião estava desaparecido e sobraram apenas dois candidatos, candidatos esses, que se toda essa tragédia não tivesse acontecido, provavelmente não seria nem lembrada a sua existência. Era manhã de sexta-feira e Firmino preparava-se para uma viajem, ele iria a São Luiz, pois seu processo fora transferido para outro juri. Um carro a mando da polícia iria buscá-lo as onze e meia, mas antes disso ele mandou chamar um de seus "cachorros":
— Dona Gorete, por favor vá chamar o Raimundo !
Raimundo assim como os outros capangas de Firmino, era fiel a seu "dono", pois ele os tratava assim, como meros bichos que ele alimentava, "selava", mas nesse caso também pagava um salário. Porém Raimundo não era como os outros, ele era filho do falecido José Odilo, o homem mais cruel que já pisou em Lageado Novo, responsável pela morte de mais de noventa pessoas, e que também era amigo pessoal de Firmino. Como gratidão por seus serviços, Firmino permitiu que a esposa e o filho do velho Odilo morassem na sua fazenda.
Ao entrar na casa, Firmino pediu que Raimundo o acompanhasse até o escritório. Então começaram a conversar:
— Bom dia Padrinho. respondeu Raimundo com certa timidez.
— Meu cabra sente-se, fique a vontade — Ele sentou com um pouco de receio — Creio que não imagine o apreço que tenho por você. Eu me dispus a te criar, a te dar comida, roupa, tudo ! Isso tudo por causa do grande respeito que eu tenho pelo meu finada amigo Odilo, que Deus o tenha.
— Eu sei senhor, eu e a mãe, nós agradece por tudo o que o senhor fez por nós.
— Acontece meu caro rapaz, que vocês possuem uma dívida comigo. Não sustentei vocês todos esses anos, porque eu sou bom não, mas por que um dia eu sabia que iria precisar do seu serviço. Você é sangue do sangue do Odilo... Você herdou o dom do seu pai. Todo esses anos te ensinando a atirar, a caçar... Foi um preparo !
— Não estou entendendo, o que o senhor tá querendo que eu faça ?
— Eu tenho uma missão pra você Raimundo. Sei que você nunca matou ninguém, eu provavelmente iria te poupar dela se pudesse, mas dessa vez não tem como. Meus homens terão que ficar na fazenda... Aqui está tudo o que tenho, meu dinheiro, escrituras e outras coisas que não vem ao caso. Não posso correr o risco dela ser invadida, agora que sabem que eu posso ser preso, provavelmente virá gente tentar invadir. Pois bem cabra, o que tenho aqui nas minhas mãos são as chaves do meu Jeep, os documentos dele e uma arma. Recentemente pedi ao Emílio que fizesse um levantamento da vida daquele infeliz do Gomes, e descobri que ele morou em Codó e que toda a sua família mora lá. Ele possui um irmão, uma cunhada ambos comerciantes e uma sobrinha professora. Sua missão é ir Codó, e dar um jeito de achá-lo. Quando fizer isso mate-o, não importa como, apenas mate. Você vai vingar tudo o que eles fez por mim.
— Como eu vou fazer isso ? E se... O senhor não tem medo que lhe acusem novamente ?
— Que façam isso, pra mim pouco importa. Eu estou acabado, não sei se dessa vez eu conseguirei escapar. Não tenho mais nada a perder. A única coisa que eu quero é me vingar, eu preciso ter esse último prazer. Não morrerei, antes de jogar um punhado de terra na cova de Sebastião Gomes. E agora vá, tente chagar o quanto antes. Não pergunte mais nada.
Raimundo saiu da sala e foi para o quartinho dos fundos arrumar suas coisas para partir. Ele estava atordoado, chegou meio cambaleando, sua mãe o viu entrar e seguiu-o. Quando ela entrou no quarto, viu o filho nervoso, tenso e falando sozinho. Ela então peguntou o que estava acontecendo:
— O que é isso meu filho, vai viajar ?
— Sim, o seu Firmino quer que eu mate um homem pra ele !
— Pelo amor de Jesus meu filho, não segue os caminho do teu pai ! Deus sabe o sofrimento que foi a minha vida do lado dele. Por favor meu não faz isso, eu não quero aquela vida de novo.
— Eu não tenho escolha mãe. A senhora sabe que se eu não fizer o que ele manda, aí quem ele manda matar sou eu !
Com pressa de sair do quarto e livrar-se da insistência da mãe, Raimundo partiu, entrou no carro e sem qualquer condição de dirigir, pegou a estrada rumo a Codó, uma cidade que ele mal sabia o rumo, mas que o medo o do patrão o faria enfrentar qualquer coisa.




.jpg)



